História da Cerveja no Brasil - Parte III

Propaganda da Cerveja Coroa de Campos no jornal
Monitor Campista (circa 1880)

Os anos dourados da cervejaria nacional (1850 - 1910)

O período de 1850 a 1910 viu o surgimento de fábricas de cerveja como nenhum outro período na história deste país, e por isso eu chamo de anos dourados da cervejaria nacional. Mas foi também o período que nasceria um gigante que, via competição e aquisições, viria a ser um dos fatores responsáveis por acabar com essa variedade de cervejarias.

A partir de 1850 muito fatores impactaram o desenvolvimento da cerveja e das fábricas de cerveja no Brasil:
  • Aumento dos impostos sobre importação incentivaram o desenvolvimento da indústria nacional
  • O surgimento do estilo Pilsen revoluciona a cerveja da Bavária e contribui para a cerveja alemã sobrepujar a inglesa no mercado nacional
  • Desenvolvimento tecnológico de sistemas de refrigeração e eletricidade
  • Aumento do fluxo de imigrantes, em especial de  alemães

Cervejaria Sul-Riograndense - Pelotas (1889 a 1940)

Esses fatores permitiram um rápido crescimento do número de fábricas de cervejas e uma disseminação por boa parte do território nacional, principalmente Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, mas até mesmo Belém, Corumbá e Manaus viram mais de uma inauguração de fábrica de cervejas.

Fábricas de Cerveja

Com o propósito de quantificar a cultura cervejeira no Brasil eu levantei o número de cervejas ativas no período. Para isso eu pesquisei em diversas fontes: Wikipedia, blog Cervisiafilia e principalmente o acervo de jornais antigos da Biblioteca Nacional Digital. Deu bastante trabalho pesquisar em jornais antigos, mas consegui levantar informações básicas sobre 400 cervejarias ativas no período. Se alguém quiser ter acesso à planilha excel que eu elaborei, é só me mandar um e-mail.

Cervejaria Paraense - Belém (1889-1947)

Acervo do Cervisiafilia
Nesta planilha eu tive que fazer uma série de suposições, por exemplo para conseguir estimar o período de funcionamento de cada cervejaria, quando não havia fontes seguras. Basicamente eu estimei que, a não ser que eu encontrasse uma notícia acerca do fechamento da fábrica, que a cervejaria teria funcionado mais cinco anos a partir da última menção à ela.

Ao final eu comparei o número obtido de cervejarias em funcionamento em 1907 com o valor que consta no Inquérito Industrial do IBGE para esse ano (primeira estatística que eu encontrei) e com isso eu fiz uma extrapolação para os outros anos. Eu parto do pressuposto que minha avaliação deixa escapar muitas cervejarias de pequeno porte que não são mencionadas em jornais em momento algum, ou não foram mencionadas nos jornais que eu tive acesso, ou mesmo que estavam mencionadas mas eu falhei em identificar.

Eu imagino que a avaliação feita em 1907 por um instituto de estatística tenha conseguido abranger essas cervejarias "ocultas". Mesmo porque, nas vias de fato, a grande maioria destas cervejarias deveriam ser muito pequenas, com menos de 10 funcionários. Para se ter uma ideia, a fábrica precursora da Brahma, quando inaugurada em 1882, tinha 32 funcionários e já nasceu como uma grande empresa do setor pelas notícias que encontrei. Eu imagino se algum desses funcionários imaginaria que aquele era o embrião do que viraria uma empresa com 150 mil funcionários 130 anos depois...






É possível dividir o gráfico em quatro fases (1850 - 1865) - (1865-1878) - (1878 - 1905) e (1905 em diante).

Acervo do Cervisiafilia



Entre 1850 e 1865 percebe-se um primeiro crescimento tímido mas significativo da indústria de cerveja. Isto pode ser explicado pelos seguintes motivos:


  • Tarifas Alves Branco em 1848 que impactou as importações de cerveja inglesa com imposto de 60% e abriu espaço para cerveja nacional
  • Extinção do tráfico de escravos em 1850 que liberou capitais para outros investimentos  industriais





Mas entre 1865 e 1878 esse crescimento se acelera significativamente e isso se dá pelos seguintes fatores:

  • Surto industrial propiciado pela Guerra do Paraguai que forçou o governo a aumentar impostos de importação e realizar emissão de moedas
  • Aumento da imigração europeia que trouxe uma nova cultura cervejeira e concomitantemente aumentou a demanda
  • Decadência da cultura cafeeira no Vale do Paraíba que forçou fazendeiros a investirem na indústria
  • Aumento do processo de industrialização do país, com aumento da malha ferroviária gerando estímulo para surgimento de novas atividades industriais em cidades mais distantes dos grandes centros uma vez que disponibilizou acesso aos insumos em uma base regular

Entre 1878 e 1905 percebe-se uma estabilização com um pequeno crescimento, chegando a 250 cervejarias no início do século XX. Este patamar é condizente com relato do Sr Cruwell sobre sua visita ao Brasil em 1876, na qual ele afirma que se poderia encontrar uma fábrica de cerveja em todas as cidades na província do Rio de Janeiro, e que a cerveja nacional não era de todo mal, mas que faltava a "força"da cerveja inglesa, provavelmente se referia ao baixo aroma de lúpulo da cerveja nacional.

A partir de 1905 esse número cai abruptamente e estabiliza em 174 cervejarias em 1910. Eu achei um tanto difícil justificar esta queda entre 1905 e 1910, uma época marca pelo crescimento das cidades, investimentos  industriais e em obras de infraestrutura, desenvolvimento tecnológico e  significativo crescimento do PIB.

Cervejaria Amazonense - 1905-1924


Pensei em algumas hipóteses, analisei os dados que eu levantei e ao final concluí que isso se deu devido a um acirramento da competição entre cervejarias, em especial no Rio de Janeiro. No início do século XX havia nada menos que 36 fábricas de cerveja na capital que não tinha ainda um milhão de habitantes. O que daria uma fábrica para cada 20 mil habitantes, enquanto a média nacional era de uma fábrica para cada 80 mil. E com isso, 60% das cervejarias que fecharam entre 1905 e 1910  estavam no Rio de Janeiro.


Cervejaria Bopp - Porto Alegre (1881 a 1924)

Ascensão e Queda da Cultura do Lúpulo


A nova cultura cervejeira no Brasil estimulou projetos que visam o desenvolvimento de uma produção de lúpulo nacional, em especial nas serras catarinenses e na Serra da Mantiqueira em São Bento do Sapucaí.


Apesar de ser alardeado como uma novidade, a ideia de se produzir lúpulo nacional para a indústria cervejeira é mais antiga que imaginamos. Em março de 1867 o Dr. Murici enviou uma carta à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (uma sociedade civil de direito privado fundada em 1831 com o objetivo de fomentar a indústria brasileira) solicitando envio de sementes da planta para plantar no Paraná, visto que ele acreditava que existiam todas as condições para o cultivo da planta.





No mesmo ano o Dr Murici respondeu à Sociedade informando que havia recebido as "raízes de lúpulo", provavelmente tratava-se de rizomas, e que das oito recebidas em bom estado, apenas duas vingaram. Ele ficou de responder quanto ao  resultado, mas não encontrei mais nenhum relato do Dr. Murici nos jornais da Sociedade Auxiliadora.



Curiosamente, em 1869 surgiram anúncios em um jornal curitibano (Dezenove de Dezembro) de sementes de lúpulo à venda que poderiam ser provenientes destas experiências do Dr. Murici. No entanto, esses anúncios cessaram rapidamente a despeito do apelo comercial, o que me leva a crer que a cultura do lúpulo não tenha vingado aqui no Paraná.



Em paralelo a isso, em 1869 aparece outra matéria no jornal da Sociedade Auxiliadora sobre o cultivo do lúpulo, na qual afirma que já existia cultura no Rio Grande do Sul, em São Leopoldo, embora de pequeno porte, o que é confirmado por uma outra matéria no Jornal de Recife. A Sociedade Auxiliadora também informa que o comendador A J Gomes Perreira Bastos, proprietário de uma grande cervejaria carioca (Imperial Fábrica de Cerveja Nacional) havia trazido da Europa dois mil pés de lúpulo e entregou a Ministério da Agricultura para distribuição. Coincidentemente a notícia sobre a ida dele foi reportado juntamente com a carta do Dr. Murici de 1867 mostrada acima. Além disso, o comendador ofereceu um prêmio em dinheiro para o lavrador que conseguisse o melhor resultado em um ano.



Não encontrei notícia sobre nenhum lavrador obtendo o prêmio, mas em abril de 1870 o Jornal do Recife apresenta um relato sobre uma visita à fábrica do comendador no Rio de Janeiro na qual se encontra uma significativa plantação de lúpulo e outras culturas locais.


E na revista da Sociedade Auxiliadora do 1870 havia um relato do Comendador Pereira Bastos apresentando o lúpulo plantado em sua chácara na rua Riachuelo - hoje zona boêmia do Rio de Janeiro. A Revista Agrícola Imperial Fluminense também apresentou uma série de matérias sobre o lúpulo entre estes anos, tratando tanto das experiências dos Comendador, quanto as experiências no Jardim Botânico, basicamente confirmando o que se apresentava nos outros jornais.


Figura na Revista Agrícola
Imperial Fluminense - 1869
Essa série de matérias entre 1867 e 1870 encerraram abruptamente, com artigos que afirmavam que colheitas estavam sendo feitas, que os resultados eram promissores, que o lúpulo obtido seria encaminhado para análise com o propósito de compará-lo com o estrangeiro e que os resultados seriam divulgados em breve. Não encontrei em nenhum lugar os resultados de tais análises, encontrei apenas alguns relatos um tanto ufanistas acerca da Feira Nacional de 1881, na qual foram apresentados produtos provenientes do Rio Grande do Sul, e que dentre estes havia lúpulo local que dizia-se ser de qualidade superior ao europeu. A partir de então não encontrei mais relatos sobre produção de lúpulo nacional.

Não é de todo de se surpreender que o resultado não tenha sido positivo, o lúpulo é uma planta que vinga bem entre os paralelos 35° e 55°, e idealmente na latitude 48°. E nosso extremos sul, o Arroio Chuí encontra-se no paralelo 33°.

Curiosamente encontrei em alguns locais informações sobre o uso de Quassia Amara (Pau-Tenente) como substituto de lúpulo em cervejarias inglesas, mas nenhuma informação sobre uma nacional fazendo isso.


Gelo na Cerveja

Um interessante relato no Herald Eudora de Iowa, em junho de 1900, tira sarro com o costume brasileiro de beber cerveja com gelo. O relato também confirma que as cervejas no Brasil eram a maior parte leves, e que estragavam facilmente.




Fontes

  • Celso Furtado - "Formação Econômica do Brasil"
  • Blog Cervisiafilia
  • Arquivos digitais da Biblioteca Nacional
  • Eric Hobsbawm - "A Era do Capital 1848-1875"
  • Brazil as a Coffee-Growing Country: Its Capabilities, The Mode of Cultivation, and Prospects of Extension described in a series of letters 
  • Arquivos do newspaperarchive.com

                                                                                                                                                  
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