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História da Cerveja no Brasil - Parte I

Cauim, a primeira cerveja brasileira


"Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la." 

Embora seja um conhecido chavão, esta frase tem um grande fundo de verdade, e eu acho que o mesmo raciocínio se aplica em nossa cultura cervejeira. Para evoluirmos com nossa cultura cervejeira nacional, sem repetirmos os erros, devemos conhecer a história da cerveja no Brasil. Isso é importante para sabermos como chegamos à atual condição e conseguirmos entendê-la em perspectiva. Com isso podemos determinar onde queremos chegar e como fazê-lo.

Em termos práticos, é a ideia de se inovar refazendo o passado. Como o que fazem os americanos e europeus que recriaram estilos que  haviam sido perdidos (ver estilos históricos) e o pessoal da Dogfish Head que criou receitas a partir de pesquisas arqueológicas (ver cervejas antigas).

Sempre fui um grande fã de história e agora me presto ao trabalho de fazer um breve apanhado desta  história específica.

A primeira cerveja brasileira foi o Cauim indígena, assunto já tratado neste artigo. Era um fermentado alcoólico feito geralmente à base de mandioca, no entanto outros tubérculos, frutas, sementes e mel de abelhas nativas também eram utilizados. Infelizmente houve uma completa descontinuidade desta cultura e muito pouco foi transmitido para as gerações futuras, sendo feito atualmente apenas em algumas reservas indígenas.

O processo de produção do Cauim era um trabalho estritamente feminino e consistia em primeiramente cozinhar a mandioca, então as mulheres e meninas se reuniam ao redor da panela, levavam uma porção até a boca, mastigavam bem, ensalivavam e colocavam a porção em um segundo pote. A pasta mastigada era colocada em fogo e mexida com uma colher de pau até cozinhar. Por fim a pasta era colocada em grandes potes de barro e enterradas para fermentar.

Esse processo de fermentação por "salivação e esputo" era o mais conhecido, mas além dele também se fermentava o beiju. Nessa técnica a mandioca era mergulhada por alguns dias na lama de um riacho e se tornava "puba", na qual ocorria mais facilmente a quebra do amido em açucares fermentáveis.

O uso do Cauim pelos nativos era em geral ritualístico. A bebida era consumida nas festividades religiosas e celebrações de guerras, o que era mal visto pelo colonizador. Isso fez as autoridades eclesiásticas coloniais desencadearem campanhas de extirpação de idolatrias, que culminou por uma perseguição pela cultura do Cauim.

A chegada da cerveja europeia


Dirck Dicx em pintura de 1639
As primeiras cervejas de origem europeia chegaram ao Brasil com a invasão holandesa em 1637. Junto com Maurício de Nassau veio o cervejeiro holandês Dirck Dicx, que era de uma família de cervejeiros da cidade de Haarlem. Os cervejeiros de Haarlem tiveram grande importância na disseminação das cervejas lupuladas, havendo registros de produção de cervejas lupuladas na região já em 1380, e por volta de 1430, 55% das cervejas de Haarlem eram exportadas de acordo com o livro "Beer in the Middle Ages". Com isso tudo, pode-se concluir que a primeira cerveja lupulada das Américas, mais próxima das cervejas atuais, foi brassada em Recife por volta de 1640, era uma cerveja forte feita com malte de cevada (importado) e encorpada com adição de açúcar mascavo (local), indício que é reforçado pelo fato de que a cervejaria compartilhava espaço com um armazém de açúcar.
A cerveja provavelmente se aproximava de uma Kuit, um estilo de cerveja que era produzido na cidade de Haarlem à época e que levava malte, cevada e trigo.
É interessante perceber que Dirck Dicx aproveitou um insumo local e abundante, o açúcar mascavo, para baratear o custo de produção de sua cerveja, uma prática que não devia ser empregada em sua terra natal. Por fim, com a expulsão dos holandeses em 1654 houve uma completa descontinuidade da cultura cervejeira na região.

Na América sob controle português a cultura cervejeira era praticamente inexistente, uma vez que até a importação de cerveja era proibida pois os portugueses temiam perder a hegemonia de seus vinhos. No entanto havia contrabando e há alguns relatos de consumo de cervejas, de origem inglesa, em cidades portuárias como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Porto Alegre durante o século XVIII.


A partir de 1808, com a chegada da família real portuguesa e a abertura dos portos, inúmeros negociantes estrangeiros, em especial ingleses, instalaram-se no Brasil fazendo chegar, dentre outros produtos, a cerveja europeia. No inicio do século XIX a Inglaterra era a maior potência mundial, a maior parceira comercial de Portugal e a maior fabricante de cerveja, assim é simplesmente racional se esperar que tenha havido grande importação de cerveja inglesa. O custo de importação deveria ser alto e assim devia ser destinada aos ingleses no Brasil, que não abriam mão de seus costumes, aos portugueses nobres e aos brasileiros mais ricos que imitavam os costumes europeus.

Porto do Rio de Janeiro em 1808 em gravura de Smyth


A cerveja era importada em barricas, sendo depois acondicionada em garrafas, para ser distribuída, podendo ser adulterada por parte dos taberneiros e intermediários. Porter, Mild Ale e Pale Ale inglesas eram os estilos dominantes no país até os anos 1870 quando a importação declinou significativamente devido a concorrência com a cerveja alemã e com as nacionais mais baratas e acessíveis.

A cerveja alemã começou a sobrepor a inglesa como a mais exportada na Europa e nas Américas a partir da segunda metade do século XIX, com o desenvolvimento das cervejas Lager na região da Bavária, e graças ao desenvolvimento de tecnologias de refrigeração. Mas no Brasil essa tendência de consumo da cerveja Alemã foi barrada com o significativo aumento de impostos de importação efetivados ao final do século XIX.

No próximo artigo desta série vamos tratar do início da produção nacional de cerveja.


                                                                                                                                                                   





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