Cervejas Antigas da Dogfish - "Ancient Ales"


"Em 1957, arqueólogos escavando na região da antiga Frígia (atual Macedônia) encontraram uma tumba real intacta com os restos de um grande banquete. Os pesquisadores concluíram que o ocupante da tumba era ninguém menos que o rei que inspirou a lenda do Rei Midas. Os restos de bebidas e comidas do banquete só foram estudadas a fundo em 1997 na Universidade da Pensilvânia onde análises cromatográficas evidenciaram marcas químicas de mel, uvas e malte."


As “Ancient Ales” da Dogfish Head são uma série de cervejas cujas receitas foram desenvolvidas a partir da análise química de resíduos encontrados em cerâmicas em sítios arqueológicos. Um assunto fascinante para quem se interessa por cervejas, história das bebidas, cervejas extremas e que se pergunta o que nossos antepassados bebiam. Eu, particularmente, me interesso muito e das sete cervejas da série, tive a oportunidade de experimentar cinco.

Sam Calagione conheceu o Dr. Patrick McGovern nos anos 90, em uma festa na casa do Michael Jackson (o famoso estudioso de cervejas e não o cantor pop), e iniciaram uma parceria que culminou com o desenvolvimento dessas interessantes cervejas. O Dr. McGovern é um dos maiores especialistas mundiais em bebidas antigas, considerado o "Indiana Jones das bebidas fermentadas". Com artigos vastamente publicados em jornais acadêmicos e livros, a pesquisa dele esclareceu questões de agricultura, medicina e rotas comerciais durante eras pré-bíblicas.


Nessa parceria, eles chegaram a colocar discos de petri cobertos com açúcar em remotas fazendas de ameixas no Egito para caçar antigas culturas de leveduras. Depois enviaram as amostras para laboratórios na Bélgica onde isolaram os organismos e os fizeram crescer em número suficiente para tornar a cultura viável.

Estas cervejas são um tanto difíceis de encontrar, mesmo no exterior uma vez que são sazonais, e infelizmente nenhum importador traz cervejas da Dogfish pro Brasil. Se você for viajar para os USA eu aconselho comprar via internet e mandar entregar no lugar onde você for ficar.... por mais que isso exija alguma cara-de-pau. Alguns sites para se comprar bebidas no USA são:

http://www.sunsetcorners.com/
http://www.universalfws.com/
http://www.wine-searcher.com/ (um buscapé de bebidas)

Outra opção é utilizar o Fish Finder, que é a ferramenta do site da Dogfish que informa onde você pode encontrar cervejas deles nas proximidades de um determinado ZIP.

Midas Touch



Esta foi a cerveja desenvolvida a partir das escavações citadas no parágrafo inicial e a primeira cerveja da série. Pouca carbonatação e com um aroma equilibrado entre o vinho, o malte e o mel nesta cerveja adocicada e com pouco amargor, o álcool se faz sentir, ainda assim com um alto drinkability, sendo a única dentre estas cervejas históricas que é produzida continuamente pela Dogfish.




Birra Etrusca Bronze 

Feita em parceria com a italiana Birra del Borgo sendo baseada numa receita de 2800 anos levando malte, um trigo especial italiano, avelãs, romã, mel, raiz de genciana e raiz de mirra egípcia. É a única que pode ser encontrada no Brasil pois a Birra del Borgo exporta para cá e vende via site da Wbeer. Frutada e apimentada, com aromas complexos que atuam nesta cerveja e acaba ficando um tanto difícil distinguir a genciana e a mirra que não são familiares ao nosso paladar. 


Chateau Jiahu 





Esta receita se baseia na descoberta da mais antiga bebida fermentada da história, cujos resquícios foram  desenterradas em uma tumba com 9000 anos no sítio arqueológico de Jiahu na China. Eu já mencionei esta cerveja brevemente em Vinho de Arroz Chinês. Leva arroz, mel, uvas e frutas silvestres (hawthorn fruits).






Theobroma



Uma verdadeira celebração do chocolate, baseada em análise química de cerâmicas de 3400 anos encontradas em Honduras. Confesso que quando eu experimentei, fiquei fascinado por esta cerveja que leva mel, cacau em pó, cacau em nibs, urucum e pimenta chilli. Já escrevi uma matéria sobre essa cerveja e minha tentativa, não-tão-bem-sucedida, de fazer um clone dela aqui.

Acho que essa escolha de ingredientes representa muito o continente americano e a sua história pré-colombiana. E acho também esse rótulo o mais maneiro de todos!!






Ta Henket


Usa ingredientes listados em hieróglifos egípcios, uma antiga forma de trigo, pães assados, camomila, frutos da palmeira dum e ervas do Oriente Médio. Para fermentar a Ta Henket, foi usada a cepa de levedura egípcia capturada nas fazendas de ameixa que foi comentado acima.


Kvasir

A receita de Kvasir foi desenvolvida com a ajuda de evidências químicas obtidas de vasos de 3.500 anos encontrados na tumba de uma alta sacerdotisa na Dinamarca. A análise revelou que os ingredientes utilizados foram trigo, arando, cranberries, myrica gale, aquiléia, mel e xarope de bétula. Se você não sabe o que vem a ser myrica gale e aquiléia, veja aqui.

Sah'tea


Receita de uma cerveja típica finlandesa que remonta ao século IX e que foi modernizada com a inclusão de chá preto, que casou muito bem com o mentolado das bagas de zimbros. Este estilo foi abordado no artigo sobre cervejas históricas. O mosto da Sah'tea é caramelizado com pedras quentes, o que adiciona um caráter terroso, e a cerveja é fermentada com uma levedura German Weizen.
O processo de caramelizar o mosto com rochas quentes pode ser acompanhado no video abaixo:





Além dessas listadas acima, a Dogfish também já fez Tej Africano (que leva mel e temperos africanos) e Chicha no estilo tradicional Sul Americano que foi um dos primeiros artigos deste blog.

O interessante é que quase todas essas bebidas possuem ao menos duas fontes de açúcares fermentáveis entre: mel, uvas, frutas ou grãos. O que nos leva a questionar o motivo pelo qual os cervejeiros/vinicultores pararam de misturar as fontes de açúcar e começaram a fazer necessariamente cerveja do grão e vinho da uva. E como que com o tempo a homogeneização foi tal que culminou nas industriais light american lagers. Provavelmente isso se deu por conta da progressão natural do processo produtivo industrial... uma pena que a consequência para a evolução dos processo produtivos tenha culminado com a redução da criatividade e diversidade de bebidas. 


                                                                                                                                                                   

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